sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Avô.

Ontem fui jantar em casa da minha avó e andei a "inspeccionar" a salinha onde ela guarda grande parte dos livros que eram do meu avô. Nunca antes me tinha ocorrido fazer isso, mas como andava à procura da trilogia "Sexus, Plexus, Nexus" do Henry Miller - que isso eu sabia que ele tinha, quase por memória fotográfica - pus-me a inspeccionar as prateleiras de uma ponta à outra. E descobri uma coisa sobre o meu avô. Ele gostava de ler. E livros bons. Desde o Henry Miller, passando por Kafka, Jorge Amado, Fernando Pessoa, Marguerite Duras, Fernando Namora, Ernest Hemingway, entre muitos outros. Tendo em conta que a minha avó é uma pessoa muito religiosa e que nunca a vi ler um livro que não seja a Bíblia e pouco mais, foi uma surpresa para mim (e uma vergonha por só o descobrir agora) que o meu avô tivesse um gosto literário tão interessante. Talvez isto explique um pouco daquela teoria de que os opostos se atraem. De repente dei por mim a desejar que ele ainda cá estivesse, porque à medida que folheava aqueles livros já amarelados e gastos muitas perguntas me surgiam. Infelizmente, ele morreu quando eu tinha 7 ou 8 anos e só me recordo de ser um velhote de cabelo branco (já o tinha assim desde os vinte e poucos anos, aliás), bastante calado e meigo (ainda que se enervasse com facilidade), que gostava de dar os seus passeios pela Avenida da Igreja, mas que vivia atormentado por uma galopante doença de Parkinson. Agora, muitos anos passados, dei por mim a desejar saber mais do que isto.

6 comentários:

Brandie disse...

Que engraçado teres descoberto que o teu avô era um homem muito avançado para a época, em que raras eram as pessoas que liam livros desses. Não o podes trazer de volta, mas sempre o conheces melhor agora:)

Cate disse...

Brandie, é verdade. Eram livros muito à frente para a época, nunca tive noção de que o meu avô lia, muito menos que "desafiava" preconceitos. Foi mesmo uma surpresa.

Sadeek disse...

É bom descobrires essas coisas, mesmo que com alguns anos de atraso Cate. Eu, que já não tenho também nenhum dos meus (e curiosamente não sinto grande falta) já descobri o que tinha a descobrir deles. Olha, por exemplo, que um a única coisa que lia era os rótulos das garrafas de vinho que bebia. ;)

BEIJOOOOOOOOOOO

N disse...

Querido.

Analog Girl disse...

Também desconhecia toda essa "vida secreta" do teu avê, talvez por a tua avó e o teu pai nunca se terem manifestado muito sobre esse aspecto dele. Acho que cada pessoa reflecte o que mais conhece. Se nem o teu pai nem a tua avó gostam de ler isso provavelmente escapou-lhes. E esse tesouro é só teu...
Mas é bom descobrirmos essas pequenas coisas das pessoas que já cá não estão. E fica sempre algum mistério, mesmo nas pessoas que conhecemos tão profundamente. Há tanto que ficou por saber nas minhas pessoas...
A parte boa é que isso dá aquela saudade calma e tranquila, e abre espaço à imaginação. As pessoas são mais interessantes do que pensavamos.

Do teu avô, também me ficam os cabelos brancos, e o teu pai ser quase uma cópia dele...

FATifer disse...

… senti necessidade de comentar pois estou no processo de perder o meu avô (está doente). Tive mais sorte pois tive o privilégio de privar com o meu avô até agora e aprendi muito com ele. Dono de uma biblioteca também extensa e diversificada, tivemos muitas conversas sobre vários livros (incluindo alguns que até já fui eu que lhe ofereci)… obrigado por me fazeres recordar isso.

Se me permites um conselho aproveita essa biblioteca do teu avô pois, se reuniu os livros dos autores que citas com certeza teria muito gosto que os lesses.

Gostei de passar por aqui,
FATifer